A tecnologia na luta contra o COVID-19 na Coréia do Sul.

Em meio à pandemia do COVID-19, diversos países estão em estado de alerta e buscando soluções para lutar contra o vírus. Nas últimas semanas o país que tem estado em destaque no combate, bem como levantando questionamentos sobre privacidade da população é a Coréia do Sul. 

Entre as ações tomadas no país para conter o vírus, a simples medida inicial de fechar as escolas ainda em fevereiro, já ajudou a diminuir a propagação através das crianças. Pois, apesar de na maioria das vezes as crianças se mostrarem assintomáticas, ainda podem levar o vírus para dentro de casa e contaminar as demais pessoas com as quais convivem. 

Uma das medidas principais foram os diagnósticos massivos, visando testar o maior número de pessoas possível. Medida essa que vemos distante em terras brasileiras, uma vez que o secretário-executivo no Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, já afirmou que “de cada 100 pacientes com coronavírus, conseguimos identificar 14. Ou seja, 86% das pessoas que têm não são identificadas”. 

A tecnologia em ação.

A medida que mais vem sido colocada em questionamento, é a da utilização de um aplicativo. Projetado para monitorar os visitantes procedentes de áreas de risco, tem sido utilizado pelo Governo para gerenciar a quarentena das mais de 30.000 pessoas espalhadas pelo país. 

“Há dois princípios que consideramos fundamentais [na ação governamental]. O primeiro é que na participação [dos cidadãos] deve prevalecer a abertura e a transparência. O segundo é empregar recursos criativos e tecnologia de ponta para desenvolver os métodos de respostas mais eficazes.” Kim Gang-lip, vice-ministro da Saúde

O aplicativo foi desenvolvido pelo Ministério do Interior e Segurança. Ele permite que as pessoas dêem atualizações diárias quanto seu estado de saúde para os agentes de saúde, sem necessitar sair de casa. Ele possui também informações do cartão de crédito do paciente e reconhecimento facial nos espaços públicos, fazendo uso de câmeras de segurança.

É possível, também, através do sistema de localização por GPS, assegurar que as pessoas não estejam violando a quarentena. Quando o fazem, um alerta é enviado tanto para a pessoa como para agentes de saúde. Com um sistema de saúde pública de alta qualidade, disponibilizado para todos os cidadãos do país, em casos onde a pessoa testa positivo para o vírus, ela é enviada de ambulância para um hospital. 

A Paciente 31.

O objetivo do Governo no uso desse aplicativo é conseguir monitorar os cidadãos e evitar situações como a da Paciente 31. A mulher de 61 anos, apesar de apresentar sintomas do COVID-19, se recusou a fazer o teste e seguiu sua rotina diária. Em suas atividades, estava incluída sua presença nos cultos da Igreja Shincheonji. 

O resultado foi a infecção de diversas pessoas, o que levou a cidade de Daegu a possuir a maior parte dos casos de coronavírus, segundo os dados do Centro Coreano de Doenças Infecciosas (KCDC). Quase 70% dos casos do vírus, puderam ser rastreados à Igreja da Paciente que ignorou as ordens médicas.

Opiniões divididas.

Em função do aplicativo permitir reunir todas as informações recentes sobre a pessoa com o vírus e avisar qualquer pessoa com quem essa pessoa tenha tido contato nos dias anteriores, as opiniões dos cidadãos divergem. 

Ao mesmo tempo que o aplicativo vem recebendo elogios, a questão da privacidade do cidadão também entrou em pauta. Apesar de os dados que são publicados não conterem nomes ou endereços, em muitos casos, essas informações têm sido facilmente descobertas. 

Algumas regiões são informadas em tempo real a respeito do estado de saúde de seus vizinhos. É possível, também, ter informações a respeito de lugares em que eles estiveram. Causando, assim, acusações de superexposição dos infectados e de entidades, como restaurantes, que tiveram seus nomes expostos e acabaram por perder clientes. 

A Coréia do Sul, entretanto, faz uso de sua legislação que permite ao governo a permissão para acessar dados pessoais de forma ampla. Isso inclui as imagens de sistemas de vigilância por vídeo, dados de GPS de carros e celulares e transações de cartão de crédito de pessoas confirmadas com a COVID-19. O que, infelizmente, não foi o suficiente para impedir que o país esteja registrando casos de assédio e agressões virtuais contra as pessoas infectadas ou com suspeita de estarem infectados.